Entre Palavra e Gesto



        Entre a literatura e a dança, Ane Coutinho construiu uma linguagem própria, onde o corpo escreve o que a palavra sugere. Fundadora da Companhia Adágio, a artista trouxe para Araçatuba uma experiência iniciada no Rio de Janeiro e amadurecida na Europa, transformando contos autorais em espetáculos e a arte em ferramenta de formação humana.


Da passagem ao enraizamento em Araçatuba

A chegada de Ane Coutinho a Araçatuba não estava nos planos. “Cheguei em Araçatuba em 2011 apenas para participar de dois concursos e depois retornar ao Rio de Janeiro”, conta. Um deles lhe rendeu o título de princesa do carnaval; o outro, um concurso literário. A despedida, no entanto, nunca aconteceu. “Me apaixonei pela cidade. Minha família estava aqui e acreditei que poderia trazer oportunidades para os jovens de Araçatuba, dividir meus conhecimentos culturais.” A acolhida foi determinante: “Na época tive apoio e fui muito bem recepcionada.”


O nascimento da Companhia Adágio

O conceito da companhia surgiu fora do país. “ADÁGIO foi um projeto desenvolvido na Itália quando fiz intercâmbio cultural e especialização em dança-teatro”, relembra. O nome veio da canção Adagio, de Lara Fabian, em sua versão italiana. “Adágio como algo profundo, enigmático e criativo. Como os pensamentos.” O projeto atravessou fronteiras, ganhou continuidade no Rio de Janeiro e, mais tarde, se consolidou em Araçatuba.


Literatura que ganha corpo em cena

A escrita sempre foi ponto de partida. “Oitenta por cento das produções foram adaptadas dos meus próprios contos literários”, afirma Ane. Espetáculos como A Gata de Sapatilhas, criada em Parma e montada três vezes, além de O Encanto das Borboletas, O Encanto dos Pássaros, A Valsa das Flores e A Dama e o Mendigo, marcaram o amadurecimento artístico da companhia.


Do conto à coreografia

Transformar literatura em movimento exige método e imaginação. “Roteirizar textos literários exige paciência, técnica de roteiro e criatividade”, explica. “Novos textos e ações são criadas, novos personagens surgem espontaneamente, diálogos nascem em um roteiro para o teatro que antes não existia no próprio conto.” Quando a adaptação chega à dança, o desafio aumenta. “A adaptação fica ainda mais complexa quando a produção é no formato da dança.”


Dança-teatro e os desafios do elenco


Dirigir espetáculos híbridos para jovens envolve superar barreiras. “O maior desafio é preparar um elenco que não dança”, diz. “Alguns têm vergonha, acreditam que sofrerão preconceito, crítica ou até desmerecimento.” Com crianças, o processo é mais fluido; com adultos, mais delicado. “Mas sempre dá certo.”


Arte como formação humana


Desde 2017, a Companhia Adágio desenvolve projetos contínuos com crianças e adolescentes. Para Ane, a dança ultrapassa a técnica. “A dança é a expressividade sem voz, muito próxima do teatro.” Inspirada na metodologia de Pina Bausch, ela adotou a dança-teatro para aproximar bailarinos da atuação cênica. “A Cia se preocupa mais com a oportunidade e a dignidade humana”, afirma. “Prepara, instrui, cura e liberta.”


Alunos, trajetórias e legado



Ao longo dos anos, cerca de 120 alunos passaram pela companhia. “Tenho ex-alunos que hoje são professores, advogados, psicólogos, assim como os que atuam na arte”, relata. O impacto vai além da técnica artística. “A evolução emocional, profissional e social dos meus alunos e ex-alunos é transformadora. Não só para a vida deles. Para a minha também.”


Um tempo de pausa e amadurecimento


Em 2026, a Companhia Adágio desacelera. “Por este ano, apenas preparação, estudos, desenvolvimento e amadurecimento em novos textos”, explica Ane. As produções ficam para 2027. “Quero me dedicar aos meus próprios estudos e terminar meu livro.” Como no sentido musical que inspira seu nome, a Adágio segue em compasso lento — preparando o silêncio necessário antes do próximo movimento.


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